Blog da Cia Escarcéu de Teatro

25/02/2008

ENTREVISTA COM Nonato Santos

 

Por - Izaíra Thalita (Jornal de Fato de Domingo, 24/02/2008) 

 

‘O artista precisa viver de sua arte’

 

 

O ator, diretor de teatro e professor Raimundo Nonato Santos da Costa possui uma história de uma vida inteira ligada à construção da própria cultura na cidade de Mossoró. Começou a atuar aos 16 anos de idade e já soma 30 anos de vivência de teatro. Membro e um dos fundadores da Cia. Escarcéu de Teatro, que neste ano completa 22 anos de fundação, ele apresenta os resultados do projeto “Aonde o Povo Está”, encerrado na última semana em Mossoró e que passou por mais 14 municípios levando o teatro à população que tem pouco acesso a ele.

 

DOMINGO – Como surgiu a idéia da Cia. Escarcéu de fazer um projeto nessa dimensão como foi o “Aonde o Povo Está”, encerrado na última sexta-feira?

NONATO SANTOS – Desde a fundação da companhia que a gente tem um propósito de popularização do teatro, e esse projeto foi pensado como uma das primeiras metas de quando fundamos o grupo. Só que na época, há mais de vinte anos, as leis de incentivo não chegavam aqui, e, aliás, não existiam em nível estadual ou municipal, e existia de uma forma muito inacessível uma lei de incentivo federal. Então, desde então, a gente elaborava projetos buscando apoios financeiros nesse sentido e a gente nunca conseguia. Só mais recentemente é que aconseguimos em nível de incentivo financeiro. Mas, estamos desenvolvendo essa campanha de levar o teatro às camadas que dificilmente têm acesso a um espetáculo desde que começamos. Ainda em 1986, quando montamos o primeiro espetáculo, a gente já o levava para a praça em frente ao mercado, em frente à igreja, fazíamos ensaios abertos na praça do Perpétuo Socorro com esse propósito, ou seja, de abrir ao máximo a participação popular dentro desse processo de produção, que são nossos espetáculos.

 

DENTRO desse projeto, vocês passaram por 14 municípios, incluindo dois do Ceará. Que tipo de realidade você encontrou nessas cidades no aspecto da cultura? Falta, realmente, mais atividade cultural nessas cidades?

A SITUAÇÃO é gritante. É uma situação de descaso, de desinformação, de dificuldade de acesso, de construção, de convívio em grupo, de falta de espaço para ensaios, apresentações, dificuldade de relação com o público, de comunicação com outros grupos das cidades mais próximas e até com Mossoró e a capital, enfim. O que a gente ressalta de interessante é que vimos na execução desse projeto e no contato com artistas e grupos dessas cidades é aquela mesma vontade que move a gente desde o início da fundação do grupo. Eles têm isso muito latente, ainda por serem jovens, alguns iniciando agora. Vimos aquele desejo e aquele sonho de conquista que hoje em dia, lutamos para manter vivo diante das dificuldades que a gente se depara com elas. Mas a gente vê que há um potencial muito grande e que está adormecido, que não decola por falta de todas as coisas que relatei anteriormente, até mesmo a dificuldade do acesso à informação. A maioria deles não sabe da existência da lei Câmara Cascudo, a lei de incentivo à cultura do nosso Estado. Então, não conhecem os caminhos, e não sabem como fazê-lo.

 

A INTERAÇÃO entre vocês e esses grupos contribuiu com a troca de experiência?

ACHO que foi muito mais positivo nesse aspecto de levar a informação, e aí falo mais em relação à parte das oficinas que realizávamos antes de cada espetáculo, do que até mesmo das questões mais técnicas do teatro que repassamos. Esse contato uma vez estabelecido, vamos tentar mantê-lo através de e-mails, alimentando informações, promovendo intercâmbio, convidando-os a vir a Mossoró participar de eventos. Mas percebemos que a informação foi preciosa, mais do que as questões técnicas e que também foi algo importante porque há essa lacuna e que até nós sentimos, mas o ponto mais positivo foi esse contato que esperamos que seja permanente.

 

QUE contribuições do ponto de vista pedagógico e educativo o teatro pôde promover junto aos jovens e aos adolescentes das cidades visitadas?

O PRIMEIRO aspecto que acho mais relevante é que a gente levou para eles uma discussão que a gente vem sempre tentando socializar, que é essa tomada de consciência, e que o artista, é, antes de tudo, um cidadão, e que ele tem uma função social importante dentro desse contexto sociocultural em que está inserido. A gente tenta diminuir aquela coisa de que a vida do artista é somente o brilho dos refletores, a vida boêmia, a falta de responsabilidade, os estereótipos e que a gente leva para eles a importância que temos como artistas, enquanto seres sociais que somos, participantes e de como, através de nossa arte, discutir de forma responsável várias questões.

 

VOCÊS se apresentaram em diversos locais. Qual deles foi o mais inusitado ou trouxe uma resposta diferente do público que o assistiu?

OLHE, sem dúvida, temos o costume de fazer espetáculos em praças, em colégios, reuniões, eventos de padroeiras, quadras de esportes. Mas, o mais inusitado que fizemos nesta temporada foi um espetáculo dentro do Mercado Público de Governador Dix-sept Rosado, por não ser um espaço adequado para o teatro. A praça, também, não é, mas a gente estava no meio das barracas entre os feirantes, e você sabe que a feira não pode ser interrompida por causa de uma apresentação. Então, houve uma interação muito interessante, a ponto de em determinados momentos do espetáculo constatamos o silêncio absoluto dentro do mercado. Cenas como a que aparece a Terra falando das conseqüências da ação do homem com relação a ela e haver um silêncio, mesmo que momentâneo, e nós conseguimos prender a atenção. A resposta foi mais surpreendente e você vê que pessoas que estavam ali com outros interesses, que não era o de assistir um espetáculo, parar um minuto para ver a cena do espetáculo e num horário de almoço. Então, foi uma ótima resposta.

 

A EXPERIÊNCIA os levou a buscar os caminhos através das leis de incentivo, mas se não fosse o apoio financeiro talvez não fosse possível. O que você diz sobre a participação de empresas investindo em teatro? Eles acreditam que há o retorno desse investimento?

DIGO que é de fundamental importância para ambos os lados. Veja o nosso caso, que tivemos o patrocínio da Petrobras e que serve como base de como é importante para ambos. Para a empresa que está patrocinando é importante, pois vai ter seu nome veiculado, a sua parcela de contribuição no desenvolvimento da arte e da cultura de uma cidade, o público vai saber disso por onde o espetáculo vier a passar. Da mesma forma há a viabilidade de poder realizar esses projetos com os recursos, e o mais relevante de tudo é saber que essa interação é positiva porque permite uma realização mais concreta e menos sofrida do nosso ofício. Digo isso porque hoje já não se admite fazer a arte somente pela arte ou simplesmente pelo prazer sem a questão financeira. Principalmente no trabalho teatral, onde a qualidade da linguagem, a qualidade estética do trabalho que você leva a um público, por mais que se considere que esse público é heterogêneo, que essas pessoas têm vários níveis de informação, mesmo assim não se permite mais fazer isso de forma artesanal, no sentido de não apresentar um espetáculo que não tenha uma estética visual atrativa. Não podemos fazer espetáculo com roupas que tínhamos no armário, como fazíamos no começo do grupo de teatro. Naquela época a gente reciclava roupas usadas. Hoje em dia, é necessária uma estrutura adequada para que possamos atingir o público.

 

EM MOSSORÓ, onde as empresas ainda não contribuem de maneira efetiva nessa questão cultural, você acha que falta compreensão sobre isso?

SIM. Muitos ainda não entendem que um artista precisa viver da arte, e o mais grave é que as empresas não têm consciência de que há necessidade dessa interação, talvez por achar que o trabalho que fazemos pode ser feito de qualquer forma, por achar que há eventos mais interessantes para patrocinar do que um espetáculo de teatro, ou por considerar que o investimento não traz retorno para a instituição, para empresa. Assim, não só aqui como em todo o país, a idéia de viver de teatro não se confirma, porque ninguém consegue viver só disso, apesar de termos incentivos, de empresas como Petrobras, BNB, que têm patrocinado muitos projetos, mas essa deficiência ainda é grande com relação à participação das demais empresas. Faz-se necessário que essa participação seja ampliada.

 

JÁ TENDO encerrado essa temporada com o projeto “Aonde o Povo Está”, vocês já possuem outro projeto em caminho?

SIM. É um projeto que também está dentro dessa política de popularização do teatro com a população mais carente. Dentro desse novo projeto, estamos levando para as escolas públicas, onde vamos discutir as questões de etnia, alteridade, discussões sobre os problemas raciais e a implantação de discussões do estudo afro-brasileiro nas escolas. Esse projeto deve ser lançado no próximo dia 26 de março, véspera do Dia Internacional do Teatro, e que depois daí passemos por doze escolas das redes municipal e estadual de Mossoró, com o espetáculo “Negra”. Devemos concluir esse projeto no final de abril.


Escrito por Cia Escarceu às 14h40
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